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terça-feira, 6 de abril de 2021

0545 - A insegurança jurídica no Brasil

A confusão sobre as leis, e a interpretação delas, é enorme aqui no Brasil.


Parece que não há nenhuma lei com interpretação clara, que não possa ser contestada, e possivelmente receber uma versão completamente diferente da primeira...

 

Isto é EXTREMAMENTE PREJUDICIAL para o país, e produz PERDAS INCALCULÁVEIS.

 

São as PERDAS do que PODERIA SER FEITO (e não é) por receio dos problemas judiciais e suas consequências (ou outras complicações inesperadas). Também são as perdas do que FOI ACORDADO e NÃO FOI REALIZADO, e não se consegue executar o acordo.

 

A pobreza e o subdesenvolvimento se alimentam dos contratos NÃO FEITOS ou NÃO CUMPRIDOS!

 

As leis são um tipo de ‘contrato social’ feito entre os habitantes de um país (idealmente seria assim...). Todos devem conhecer e seguir este ‘grande acordo’, e para quem não o fizer, haverá um grupo especializado em intermediar/resolver as questões (o judiciário).

 

Tudo DEVE ser claro, simples, óbvio, confiável, acessível, para TODA a população!

 

NADA pode ser confuso, complexo, subjetivo, incerto, inacessível, ou apenas para especialistas lidarem!

 

Quem já passou por situações assim (como eu), de confusão jurídica, fica pasmo com os resultados! É traumatizante e assustador, balizando as decisões para o futuro (quase sempre de forma negativa).

 

Conheço pessoas de alta competência, que poderiam realizar grandes projetos, investimentos, envolver grandes equipes, mas que simplesmente decidem ficar apenas em pequenos empreendimentos. Elas escolheram NÃO CRESCER, ou NÃO EXPANDIR, por causa da insegurança jurídica.

 

E este quadro vale para todas as instâncias do judiciário e outras áreas. Justiça cível, criminal, eleitoral, federal, trabalhista, STJ, STF, sistema tributário, regulações de atividades, empreendedorismo, fiscalizações, meio ambiente, pagamentos/cobranças...

 

Aqui no Brasil, parece que NADA é garantido, seguro, estável, exceto os direitos e regalias das elites... Estes nunca falham!

 

Insegurança jurídica é uma conjuntura que envolve, dentre outros fatores, excesso, ineficiência, imprevisibilidade e falta de clareza de normas, modificações constantes no ordenamento jurídico, quebra de isonomia em atos jurídicos públicos, abuso de interferência estatal em negócios jurídicos privados, excesso de burocracia e judicialização, morosidade (prazos infinitos de resolução), ineficiência do sistema judiciário, volatilidade na interpretação das normas, e fiscalização ineficiente ou abusiva.

 

Isto produz na sociedade e no empreendedor a quebra da confiança de que o Estado é capaz de propiciar um ambiente confiável para o desenvolvimento dos negócios e a solução dos problemas sociais.

 

Para um estrangeiro, o que acontece no contexto judiciário brasileiro, deve soar primeiramente como inacreditável! Depois cômico... Até que ele de fato comece a assimilar que as coisas são como são.

 

E isso inibe muitas ações de investidores estrangeiros, que acabam escolhendo apenas  setores estratégicos, monopólios, ou áreas de altíssima lucratividade, nos seus investimentos, para tentar ter uma contrapartida à ‘loucura normativa’.

 

O país acumula 5,9 milhões de normas editadas nas três esferas de governo (União, Estados e municípios) desde a Constituição de 1988. (Dados da net). (São quase 500 por dia). Este volume assombroso implica em grande probabilidade de alguém incorrer em falhas, por desconhecimento de alguma ‘norma escondida’.

 

(Alguns sites falam em 5.000.000 de NOVAS normas, leis, regulamentos, decretos, etc., POR ANO.)

 

Ex: Se alguém aprender 110 leis novas por dia, em 30 anos terá aprendido 1.000.000 de leis, (e não pode esquecer de nenhuma). Então, é humanamente impossível lidar com a realidade brasileira.

 

No ranking do Fórum Econômico Mundial, ocupamos somente o 120º lugar em eficiência do aparato legal para a resolução de disputas. (Dados da net). Ou seja, muito ruim...

 

A insegurança jurídica é como um trem-fantasma, com um susto em cada curva, ou como uma tragédia iminente, que pode se abater contra alguém a qualquer momento.

 

As regras mudam da noite para o dia, e o que antes valia, agora não vale mais. Uma lei que vale hoje, terá validade amanhã? Ninguém sabe... Além de que uma nova determinação pode ter efeitos retroativos (alterar o passado)...

 

Muitas vezes não há prazo razoável para transição ou adaptação à nova norma.

 

E o judiciário é forte contra os fracos! Uma decisão pode ser completamente absurda, mas terá força e validade, até que (talvez) haja uma decisão contrária. E o dano ou transtorno causado fica por isso mesmo...

 

Imagine ver um jogo de futebol, onde de um lado tem 15 jogadores, e do outro 9, alguns podem pôr a mão na bola (e o juiz não apita), mas outros, se colocarem a mão na bola, são punidos com pênalti e expulsão.

 

Então um time marca um gol. Porém 20 minutos depois, vem um juiz de fora da partida, e anula o gol, dizendo que daquela posição o jogador deveria ter chutado com a perna direita, e foi com a esquerda, portanto o gol está anulado... E quem reclamar, será expulso.

 

Quem entraria num jogo como esse?

 

Um jogador sério, honesto, evitaria esta competição desleal. Tudo é muito estranho. Iria procurar um campeonato com uma competição justa.

 

Mas um jogador corrupto, desonesto, sente-se à vontade neste ambiente. Está acostumado a isso...

 

Para empreendedores (como é o meu caso) a situação é especialmente adversa. Parece que estas pessoas são consideradas pelo poder público como ‘criminosos em essência’.

 

Na minha área de atuação (Óptica) há várias leis regulamentando a atuação. Porém há uma grande concorrência desleal, que não cumpre as leis. E o Ministério Público não age (e devia apurar as denúncias).

 

O que devo fazer? Sou grandemente prejudicado neste contexto.

 

O judiciário vive numa ‘bolha de outro mundo’, fora da realidade brasileira, com os mais altos privilégios entre todas as classes, protegidos, e praticamente inatingíveis. Um cidadão comum quase não pode lidar diretamente com o judiciário, pois a linguagem jurídica e as normas envolvidas somente são conhecidas por especialistas da área (advogados e outros).

 

Para a elite, tudo está muito bem! Nada precisa mudar. Estão acima das regras.

Para os que estão numa ‘posição protegida’, tudo está muito bem! Nada precisa mudar.

Para os corruptos e ilegais, tudo está muito bem! Nada precisa mudar.

 

Para quem está numa área de altos ganhos, consegue contornar as perdas.

Porém para uma pessoa honesta, numa área de ganho ‘médio’, e sem ‘proteção’, o sistema está muito adverso. TUDO precisa mudar!

 

A frase “No Brasil, até o passado é incerto” (Pedro Malan - ex-ministro da Fazenda) expõe a desastrosa insegurança jurídica hoje vigente no país. O ambiente econômico, institucional, e social no Brasil estão cada vez mais corroídos pelas incertezas que rondam a aplicação de leis e normas, deixando em dúvida o entendimento não só do futuro, mas também do presente e, absurdamente, até do passado.

 

Frase interessante, atribuída a Otto von Bismarck:

 

“Com leis ruins e funcionários bons (juízes), ainda é possível governar.

Mas com funcionários ruins, as melhores leis não servem para nada.”

 

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